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Pensamentos sobre o ato da escrita

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  (1) Às vezes, acho que escrever é inútil. Mas confesso que nunca pensei que ler fosse inútil. “Mas, para ler, é preciso que alguém escreva”, dirá-me alguém. Discordo: é também possível ler o que não está escrito — o que é, aliás, uma das coisas mais úteis do mundo.   (2) Se não gostas de mim, podes gostar, ao menos, de meu eu lírico. Se não gostas de mim, podes gostar, ao menos, de meu narrador em primeira pessoa. É por essa possibilidade adicional de te atrair a mim que ora escrevo.   (3) Perguntam-me se escrever vale a pena. Minha resposta é: hoje em dia, não. Não se usa mais pena para escrever. Mas ainda vale o lápis, a caneta, a tecla do computador.   (4) Hoje vi um livro sobre o ato da escrita. Era um calhamaço. Não o li, pois quero aprender a escrever sozinho.   (5) Há uma canção da banda Pink Floyd em que Stephen Hawking afirma que a fala permitiu que a humanidade construísse o impossível, e que tudo o que precisamos fazer é assegurarmos...

Cacofatofobia

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  Enquanto estás na festa, fico em casa a ler alguma coisa para esquecer-me de ti. É em ocasiões como esta que um ser tímido aprende novas palavras. Talvez não saibas, sei que não gostas muito de ler... — ao menos, pareces não gostar mais de ler o que escrevo, já que não curtes mais nada do que publico — mas há uma palavra — dicionarizada! — para descrever a aversão ou o horror ao cacófato: cacofatofobia. Confesso que, para mim, é mais razoável ter aversão ou horror a essa palavra do que a cacófatos. Ela, em si, é um trava-língua de elevada complexidade que mal consigo dizer sem gaguejar.   Talvez não saibas — ou saibas, mas de forma incompleta — dos meus medos, das minhas fobias. Não consigo ficar muito tempo em meio a muita gente conversando, interagindo entre si. Soma a isso o meu medo de covid-19, um dos meus poucos medos que considero racionais. Por isso, não fui à festa. Preferi ficar em casa lendo alguma coisa para te esquecer. Dentre os meus medos, que não são pouc...

O amor não é criativo

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  Conversando sobre cinema, uma amiga contou-me que gosta muito de assistir a filmes românticos “clichês”. Aqueles em que, por exemplo, o homem é superinsistente com uma mulher que não lhe dá muita bola, em que pessoas se apaixonam perdidamente logo após se encontrarem pela primeira vez ou em que a noiva foge do altar no último momento para viver com seu “verdadeiro amor”. Não vejo problema em clichês. Ainda mais se tratando de amor, que já é, em si, um lugar-comum.   Pedi a minha amiga que citasse um filme romântico cuja trama fosse, em alguma medida, “original”, isto é, que desviasse das repetições associadas a relacionamentos entre dois enamorados. Ela mencionou o italiano Il postino ( O carteiro e o poeta , como ficou conhecido no Brasil), um dos meus longas-metragens preferidos. De fato, à primeira vista, parece haver pouco ou nenhum clichê cinematográfico na história de amor entre os personagens Mario Ruoppolo e Beatrice Russo. Mas o filme, ele próprio, é um grande simul...

Aporofobia patense denunciada por Julio Lancellotti

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  O padre Julio Lancellotti, da Paróquia São Miguel Arcanjo, de São Paulo, vem denunciando em suas redes sociais, há algum tempo, discursos, cartazes, ações e obras arquitetônicas espalhadas por todo o Brasil que reafirmam e que, por vezes, materializam a aporofobia da sociedade. Eu, como patense, já esperava que, em algum momento, o sacerdote publicasse algo relacionado a meu município, pois, aqui, a aporofobia é naturalizada há décadas. Minha expectativa se confirmou hoje, quando Lancellotti divulgou cartaz, fixado na rodoviária da cidade, em que se lia: “Patos de Minas não quer pessoas morando nas ruas / Não dê esmola! Dê futuro”.   A Prefeitura logo respondeu à postagem, realizada no Instagram: “Boa tarde, Padre! Essa arte não é da Prefeitura de Patos de Minas. Toda a nossa comunicação e administração é feita de forma consciente, respeitosa e com olhar atento ao próximo. Fica também o convite para conhecer de perto o trabalho da nossa Secretaria de Desenvolvimento Soci...

José Luiz, o vereador

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  Observação preliminar: antes que eu seja processado por alguma pessoa sem capacidade de interpretação textual, ou que somente saiba interpretar um texto conforme lhe convém, afirmo que, neste apontamento que escrevi e que reli várias vezes, não há qualquer acusação, difamação, injúria, calúnia ou ato antiético da minha parte, mas apenas reflexões críticas e questionamentos que ora levanto e desenvolvo.   Acabo de ler uma notícia, publicada em um site patense, segundo a qual o vereador de Patos de Minas José Luiz, do Podemos, conseguiu, sem qualquer dificuldade e com impressionante rapidez, um habeas corpus que suspende para ele e para seu assessor os efeitos de um decreto recente de Lagoa Formosa. O decreto em questão, publicado na última terça-feira (11/01), exige comprovação de pelo menos uma dose de vacina contra a covid-19 para se entrar em estabelecimentos comerciais, eventos e escolas no município.   Aos leitores que não são da região, gostaria de enfatizar que o...

O que falta aos escritores patenses

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  (Este texto reflete minha opinião. Não falo, aqui, em nome do conjunto de escritores de Patos de Minas.)   Fui recentemente perguntado sobre o que penso faltar aos escritores patenses: se incentivos financeiros, se apoios culturais etc. Indaguei à pessoa que me fez essa pergunta se ela já havia lido algum dos meus livros. Ela disse que não. Ora, o que falta aos autores daqui é justamente isto: serem lidos.   Certa vez, pouco tempo após o falecimento do professor e escritor Milton Santos, a geógrafa Maria Adélia de Souza, então professora da Unicamp, foi convidada pelo reitor dessa universidade a participar de um evento em homenagem a Milton, que daria nome a uma praça da instituição. Surpreso, o reitor ouviu como resposta um sincero não de Maria Adélia. Posteriormente, ela explicou que a melhor homenagem a esse grande autor não era transformá-lo em nome de praça, mas, sim, fazer que suas obras sejam conhecidas, lidas, discutidas e disponibilizadas nas bibliotecas da uni...

Limpem as praças de Paris

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  Um vereador de Patos de Minas publicou, recentemente, nos stories do seu perfil no Instagram, foto de uma praça da cidade em que há um abrigo improvisado de uma pessoa em situação de rua, ao lado de objetos que, provavelmente, pertencem a ela. Na publicação, o legislador marca o perfil da prefeitura municipal e escreve: “(...) quero informar novamente que essa situação não pode continuar! Praça não pode ser moradia de cidadão. Alem disso, está acumulando uma sujeira grande no local. Portanto, se possível, pedir para podarem a praça e fazer a limpeza do espaço!”   Querendo ou não, a fala do vereador me soou um tanto higienista. Eu, em seu lugar, teria advogado, em primeiro plano, o cidadão na praça, não a praça em si. Algo assim: “Quero dizer novamente que esta situação não pode continuar! Um cidadão não pode ter uma praça como morada. Ela está suja, e ele merece uma morada limpa e digna para viver. Portanto, se possível, ajudem-no a ter uma condição de vida melhor e, em ...