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O que ainda me resta ser

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Sinto que estou perdendo minha voz. Não que eu esteja ficando rouco, ou mudo. Nada disso. Mas tenho falado menos, e com menos gente. Tenho, também, escrito menos literatura. No geral, tenho escrito mais, é verdade, mas o que escrevo é a linguagem pobre de um chat , de um WhatsApp . E isso não é arte, nem é minha voz, nem sou eu. No álbum É melhor ser , de Simone, a Cigarra canta uma faixa inspirada em um bilhete de Fernanda Montenegro: “Uma pessoa é o que a sua voz é”. Sinto que talvez, ao perder aos poucos minha voz, eu esteja a me perder. Já estou me esquecendo de minha risada de antes, de minha entonação de antes, de meus cumprimentos de antes. O eu lírico de Cecília Meireles pergunta-se em que espelho está perdida sua face; eu pergunto-me em que áudio está perdida minha voz. A essência é quase a mesma, mas a voz representa o ser falante mais do que seu próprio semblante. Ao menos, ainda não me esqueci do que é escrever literatura, se é que um dia já o soube. Escrever um poema, uma ...

Catolicismo ou bolsonarismo

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Não tenho a propriedade de dizer que católicos verdadeiros não possam ser apoiadores de Jair Bolsonaro em tempos de novo coronavírus, mas tenho o direito de elencar os cinco pontos seguintes: 1. Na nota “Em defesa do SUS, da ciência e da vida!”, de 25 de março, a Juventude Franciscana (JUFRA) do Brasil manifestou repúdio ao pronunciamento de Bolsonaro no dia anterior sobre a pandemia. Diz parte do texto: “discursos como este, matam. Enquanto o mundo se une para tentar encontrar maneiras de superar a pandemia, o Presidente do Brasil incentiva sua transmissão a partir deste discurso, colocando em risco toda a população brasileira”. 2. No documento “Pacto pela Vida e pelo Brasil”, subscrito pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no mês passado, é defendido: “o isolamento se impõe como único meio de desacelerar a transmissão do vírus e seu contágio”. Vale recordar que, em 2018, Bolsonaro chamou os bispos de “a parte podre da Igreja Católica”. 3. Na nota “Po...

O calvário do “messias”

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Em El Salvador, a pandemia do novo coronavírus está a revelar a face autoritária do jovem presidente Nayib Bukele. Após uma onda de assassinatos que deixou 23 mortos em apenas um dia, o governante concedeu carta branca ao Exército, confinou detentos de gangues rivais na mesma cela e impediu que a luz entrasse nas prisões – com respaldo do povo: Bukele tem cerca de 90% de aprovação popular. Muitas semelhanças têm entre si os governos brasileiro e salvadorenho. Contudo, há uma diferença crucial no caso sul-americano: aqui, a pandemia tem feito o presidente perder poder. Nosso “profeta” – segundo André Mendonça, o novo ministro da Justiça – e “messias que não faz milagre” – segundo o próprio Bolsonaro – está assistindo a sua coalizão desmoronar. Falsos profetas, quando surgem, costumam ser bem recebidos em suas pátrias – mas, como Bolsonaro bem lembra, no fim, a verdade impera. E está-se começando a verificar o calvário do “messias de arma na mão”, como canta Mangueira. Já s...

É tempo de mensagens

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“Hubo golpe de estado en Brasil? Por aquí los medios están diciendo eso” . Recebi esta mensagem de um contato argentino na noite do dia quatro de abril. É claro que não havia ocorrido golpe de Estado no Brasil. Ainda assim, não hesitei em investigar o caso. Li matérias jornalísticas de Argentina, México e Itália noticiando o suposto “golpe brando” que tirara “informalmente” Bolsonaro do poder. “Sigue en funciones, pero no cumplirá ninguna misión” , dizia um site estrangeiro. Quem o teria destituído fora Walter Braga Netto, ministro-chefe da Casa Civil. No Brasil, apenas periódicos de nível Revista Fórum e Brasil 247 descreviam a situação. Assim, respondi a meu contato, brevemente, que se tratava de mais uma fake news . Contudo, após a recente saída de Moro do Governo, reconsiderei minha posição acerca da teoria aparentemente conspiratória que circulara no estrangeiro. O ano de 2020 está marcado profundamente por descontentamentos de então aliados de Bolsonaro, que, agora, v...

A crise de meia-idade do PDT

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O Partido Democrático Trabalhista está com quarenta anos e em crise de meia-idade. Nas eleições de 2018, o candidato Ciro Gomes foi um verdadeiro destaque; com boa oratória, soube ser oposição ao PT e a Bolsonaro. Experiente, com boas propostas e argumentação convincente, conquistou o apoio de grande parte da centro-esquerda. Mesmo o PDT terminando em terceiro lugar nas presidenciais, logo depois surgiu um grande fenômeno no partido: Tabata Amaral. Jovem, dinâmica, inteligente e crítica. Representou muitos não só da centro-esquerda, como também de setores mais à esquerda de suas próprias convicções. Tudo isso até chegar a tão amotinada Reforma Previdenciária do Brasil. O apoio público de Tabata em favor da reforma descontentou a maioria de seus apoiadores; ainda assim, continuou sendo inspiração para parte da centro-esquerda favorável à reforma e, depois, parte da centro-direita, popularmente chamada “Centrão”. Mas não por muito tempo: os jornais deixaram de se preocupar ...

Flores a Bicalho

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Bicalho nunca havia recebido flores na vida. Talvez porque nunca houvesse namorado. Mas recebeu. Ontem, em seu próprio apartamento. A namorada visitara-o trazendo-lhe flores. A princípio, Bicalho alegrou-se com o agrado, cheirou-as e agradeceu à amada. E, cuidadosamente, meteu-as em um vaso com água, de um vidro esverdeado. Mas, é claro, antes de metê-las, recebeu também a namorada, além das flores. Recebeu-a com alegrias, cheiradas etc. Jantaram, beberam etc. E a amada foi, enfim, embora. Só então Bicalho foi olhar as flores, enquanto lavava os pratos. E percebeu que as flores não eram flores quaisquer. Eram rosas. E não eram rosas quaisquer. Eram rosas amarelas. Quem diria que as primeiras flores que receberia na vida seriam amarelas! Por um momento, pôs-se a pensar que as primeiras flores que ganharia na morte seriam brancas. Mas depois se lembrou de ver flores de outras cores no velório da vovó Bicalho e, dois meses depois, no velório do tio Bicalho do meio. Por que c...

Esperanças cautelosas

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Aqui, na fazenda, quase ninguém tem palpite sobre o que se fazer para solucionar a pandemia – inclusive eu. Acho isso genial: não opinar acerca do que não se sabe. Fui criado no campo, espaço em que é tradicional ensinar-se a humildade aos filhos. Nada obstante, conhecemos o que não deve ser feito. Sabemos que as idas à cidade não podem ser frequentes, e que os cultos e as missas não devem mais ser celebrados com a comunidade toda reunida. Mas acontece que o país é grande, o mundo é grande; a pequena Boa Vista é nem sequer um ponto no mapa. E, por aí, há muita gente que gosta de propor soluções não embasadas na experiência – algo que, no meio rural, costuma ser muito valorizada. Bem, o problema é que ninguém parece saber ao certo o que deve ser feito – por isso, a cautela é tão importante, como ressalta a cientista Angela Merkel. Olhar o que ocorreu em outros países deve ser interpretado como um ponto-chave. O escritor português Valter Hugo Mãe, em carta destinada aos bra...