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Compilação de pensamentos sobre aquela noite

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(1) Citei a frase “Minha pátria são os amigos”, mas não me lembrava do autor dela. Agora me lembro: é Alfredo Bryce Echenique. (2) Cantei “Você me abre seus braços / E a gente faz um país”. Ele abriu os seus braços e a gente fez um país. (3) Minha pátria são os meus amigos e minha pátria me encanta. Mas também me encanta o estrangeiro. (4) Às vezes a gente faz o estrangeiro abrindo as bocas. (5) Às vezes, com braços e bocas abertos, a gente faz o mundo.

Comentário sobre a beleza de João

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João é o homem mais bonito desta universidade. Mais que isso, é dela a pessoa mais bonita. Mais que isso, é dela o ser vivo mais bonito. Sim, sei que é difícil, senão impossível, comparar a beleza de um homem, de uma mulher e de um jacarandá. Ainda assim, creio que João é o mais bonito de todos, ou de tudo. Na minha lista de seres vivos mais belos da universidade, ele aparece em primeiro lugar. Em segundo, vem um pinheiro velho, meio tombado. Em terceiro, um ipê-roxo. Só em sexto ou sétimo lugar é que está uma outra pessoa: uma professora do Instituto de Biologia. Sei que minha lista é limitada, pois não conheço nem metade dos seres vivos da universidade. Além disso, a esmagadora maioria deles é tão minúscula que é invisível a olho nu. Mas que me importa um olho nu? Em matéria de nudez, só me importa João.

Miniconto

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Três dias após sua visita, em que dormiu em minha sala, pus, na máquina de lavar, a roupa de cama usada por ele, junto a roupa de cama usada por mim. Quando retirei toda a roupa, que já não mais cheirava a ele ou a mim, mas a amaciante, notei que havia, em diversas peças, fios de cabelo. Meu cabelo é castanho. O dele, loiro. Na fronha em que repousei a cabeça ao longo da semana, havia um fio loiro. Na coberta que o aqueceu naquela noite fria, um fio castanho. Na manhã seguinte, quando o encontrei, recomendei que tomássemos cuidado com nossa iminente calvície.

E-mail de uma poeta a um leitor

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Agradeço o seu e-mail a respeito do último livro que publiquei, Poemas cotidianos . Em seu texto, você diz que se sentiu identificado com o personagem amado pelo eu lírico de alguns poemas de amor que compõem a obra; em especial, dos poemas das páginas 25 e 26. Por fim, você elogia a mim e ao meu livro, comparando-me a alguns dos meus poetas prediletos e comparando Poemas cotidianos a alguns dos meus livros preferidos. Muito obrigada. De fato, querido Valério, eu pensava em você quando escrevi os poemas que você menciona. Não tenho, de forma alguma, o talento dos escritores que você aponta, mas reconheço que os poemas que escrevi foram bem escritos. Talvez, a beleza que os caracteriza se deva mais à matéria de inspiração (você) que à habilidade desta autora. Drummond, Szymborska, Pessoa — os poetas que você menciona — foram sublimes. Mas nenhum deles falou de você. Isso me torna uma poeta que, embora não tenha escrito o mais belo, falou do mais belo. Esse é o único diferencial que eu ...

Rabisco de intimidade

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Olho você. Seu cabelo meio amarrado, meio solto, seus olhos escuros, seu sorriso raro. Você, à mesa, na lanchonete, comendo um sanduíche. “Sou um homem comum…” — começo a cantarolar, quase que só em pensamento, uma canção de Caetano. Vem-me à mente um conselho célebre de Darlene, personagem do seriado Pé na cova : “Olha através, Abigail. Pra aquilo que não pode ser, a gente olha através”. Olho para um lado. Olho para outro. Olho você. Não há através em você, não há translucidez em você. Há opacidade, sombra, mistério, parede, porta. Você. Você olha para mim. Disfarço o olhar. Finjo limpar as lentes dos meus óculos, gesto habitual. Gosto de tê-las bem limpas, para olhar através. Mas você não é lente, não é vidro, não é acrílico. Você é colírio: lubrifica os olhos, mas embaça a vista. Você é aquilo que não pode ser, o proibido. “Olha através…” Levanto-me da cadeira e vou até o caixa. Olho para um espelho na parede, que reflete você. Manipulo o conselho, trocando os sentidos, adequando-o ...

Falas de Bolsonaro sobre a Igreja Católica ou seus membros

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Sobre Dom Paulo Evaristo Arns: durante discurso no plenário da Câmara, o presidente o chamou de “desocupado”, “vagabundo”, “megapicareta” e detentor das chaves “da porta do inferno”. Também disse que o religioso deveria “se recolher à sua insignificância, ao seu trabalho demagogo”¹. Sobre os bispos brasileiros: Bolsonaro os definiu como “a parte podre da Igreja Católica”². Sobre o padre Julio Lancellotti: o presidente o chamou de “Padre Pajero”, com um “padrão Fifa, padrão 7 a 1”, sugerindo que ele não é sério ou responsável. Sobre Jesus: Bolsonaro opinou que “ele não comprou pistola porque não tinha naquela época”⁴. Referências: ¹ < https://bit.ly/2ChsJva >. ² < https://bit.ly/3RCcCv8 >. ³ < https://bit.ly/3CwpVZx >. ⁴ < https://bit.ly/3Ei44GH >.   

Aos evangélicos indecisos

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Tenho muitos amigos evangélicos. Não sou evangélico. Isto não me impede de ter uma relação respeitosa com o protestantismo, ou de escutar com atenção os bons exemplos de líderes com raízes protestantes. Posso começar citando o irmão Roger, fundador da comunidade ecumênica de Taizé, na França. Grande cristão, soube promover a paz, o diálogo e o respeito. Era filho de um pastor protestante. Relacionou-se admiravelmente bem com a igreja católica, escrevendo, por exemplo, livros com a madre Teresa de Calcutá. Cito, também, o pastor batista Martin Luther King Jr., imenso defensor dos direitos civis nos Estados Unidos. No Brasil, dou destaque à pastora luterana Romi Bencke, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), a qual acompanho há tempos. Ela teve participação muito importante na última Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE), no ano passado, ocasião em que foi muito atacada nas redes sociais por pessoas extremistas e fundamentalistas, recebendo notas d...