Enfim, eu estava prestes a realizar este desejo antigo, que passei a ter desde que me mudei para cá. Paguei o item na máquina de autoatendimento do supermercado e trouxe-o para casa. Retirei-o da embalagem. Estava frio. Um cheiro horrível tomou conta do ambiente. Com um garfo, experimentei. Algumas experiências não precisam ser positivas para valerem a pena: aos olhos de Deus, um terço gozoso tem o mesmo valor que um doloroso etc. Meu paladar não se orientou pela medida divina — o cuscuz que eu acabara de provar não chegava aos pés do nordestino. Ainda assim, ter saciado o meu desejo fez compensar o dissabor. Algumas semanas antes, eu começara a sair com um rapaz. Ele estudava na mesma universidade que eu. Nós nos conhecemos no cinema. Lá, assistimos a um drama francês. Apesar de ele ter permanecido sentado ao meu lado durante toda a exibição, notei-o somente ao final, quando eu me levantava para ir embora. Foi ele quem puxou assunto. Estávamos, até então, desacompanhados. ...
Pouco após a publicação de O livro de areia pela Companhia das Letras, talvez em 2010, talvez em 2011, eu o li. Eu não estava nem na metade de “O outro”, o primeiro dos contos, quando fui inundado por um profundo assombro. Tive a sensação de estar correndo um grave risco se continuasse com a leitura, que era o de, aos vinte e poucos anos, ter lido o melhor livro de todos os que eu já havia lido e de todos os que eu ainda haveria de ler. A biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem, que o tinha recém-adquirido, contava com a obra completa de Borges, bem como com a obra completa de tantos outros escritores, e com a incompleta de um número ainda maior deles. Terminei a leitura de “O outro” e devolvi o livro à estante. Não tive coragem de continuar. Desde então li os demais livros de Borges — de fato, todos os que eu ainda não havia lido menos O livro de areia (e todos eles ótimos, menos os de poemas; para mim, a contribuição do grande mestre à poesia é nula) —, li alguns trabalhos ...
1) Em uma praça, peça um algodão-doce a um vendedor do produto. Enquanto a guloseima não fica pronta, faça-se hipnotizado pela magia dos fios cor-de-rosa transformando-se em nuvem no palito. 2) Ao tomar uma casquinha, distraia-se com alguma coisa até perceber que o sorvete começou a derreter, depois de ele já ter tocado o dedo de sua mão. Então, faça cara de espanto e ponha-se a lambê-lo depressa, num lado e noutro. 3) Ao comprar macarrão em um supermercado, eleja o de letrinhas. Em casa, tendo-o preparado, forme palavras que acompanharam você em sua infância. 4) Coma um suspiro. Depois, suspire. 5) Ponha um pirulito na boca. Primeiro, segurando o cabinho entre os dedos indicador e médio, finja estar fumando. Em seguida, movimente o pirulito de um canto a outro da boca e o retire depressa, produzindo um melodioso estalo.
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