1) Em uma praça, peça um algodão-doce a um vendedor do produto. Enquanto a guloseima não fica pronta, faça-se hipnotizado pela magia dos fios cor-de-rosa transformando-se em nuvem no palito. 2) Ao tomar uma casquinha, distraia-se com alguma coisa até perceber que o sorvete começou a derreter, depois de ele já ter tocado o dedo de sua mão. Então, faça cara de espanto e ponha-se a lambê-lo depressa, num lado e noutro. 3) Ao comprar macarrão em um supermercado, eleja o de letrinhas. Em casa, tendo-o preparado, forme palavras que acompanharam você em sua infância. 4) Coma um suspiro. Depois, suspire. 5) Ponha um pirulito na boca. Primeiro, segurando o cabinho entre os dedos indicador e médio, finja estar fumando. Em seguida, movimente o pirulito de um canto a outro da boca e o retire depressa, produzindo um melodioso estalo.
A briga de Falcão com os manifestantes hoje foi constrangedora para ambas as partes. Foi constrangedora para os comerciantes porque o novo lockdown não foi uma decisão municipal, mas estadual, e o prefeito não pode fazer nada para driblar essa ordem. E foi constrangedora para Falcão por motivos óbvios demais para serem escritos. O desfecho do alvoroço foi o arremesso da máscara e dos papéis do prefeito no chão, por ele próprio. Aqui, foi constrangedor para a Patos de Minas inteira. Todos nós perdemos a briga. “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas” — escreveu Machado de Assis. Hoje, ninguém levou batatas. Os comerciantes e o prefeito receberam um pot-pourri de ódio e de compaixão, tanto da opinião pública quanto deles mesmos. Não sei se ainda é válido apontar culpados pelo caos atual. Ao mesmo tempo, eu gostaria de poder afirmar que “cada um sabe de si”, mas seria mentira. Há muitos que não sabem de si; há muitos que não sabem as consequê...
Pouco após a publicação de O livro de areia pela Companhia das Letras, talvez em 2010, talvez em 2011, eu o li. Eu não estava nem na metade de “O outro”, o primeiro dos contos, quando fui inundado por um profundo assombro. Tive a sensação de estar correndo um grave risco se continuasse com a leitura, que era o de, aos vinte e poucos anos, ter lido o melhor livro de todos os que eu já havia lido e de todos os que eu ainda haveria de ler. A biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem, que o tinha recém-adquirido, contava com a obra completa de Borges, bem como com a obra completa de tantos outros escritores, e com a incompleta de um número ainda maior deles. Terminei a leitura de “O outro” e devolvi o livro à estante. Não tive coragem de continuar. Desde então li os demais livros de Borges — de fato, todos os que eu ainda não havia lido menos O livro de areia (e todos eles ótimos, menos os de poemas; para mim, a contribuição do grande mestre à poesia é nula) —, li alguns trabalhos ...
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